A TRAÇA CRÍTICA
Essa semana foi aniversário de um amigo, sempre que tinha uma data assim, eu ficava perdido, pois durante muito tempo eu nunca soube o que dar de presente, porém agora eu dou livro, sim eu virei essa pessoa, desculpa se você não gosta de ganhar livro ou se não lê, mas se é meu amigo vai ganhar, todos os anos, até chegar um momento que você leia um ou tenha uma estante bem decorada, graças a mim. Não dou qualquer livro, não pego um livro aleatório e pronto. Não, tento ir pelo que eu acho que a pessoa vai gostar, mesmo se ela não lê, tento com o que sei sobre ela imaginar o gosto dela para leitura. Então de preferência gosto de dar livros que eu já li, não dos meus, esses eu nem emprestar empresto, livro que eu já li ou conheço, então pra esse amigo eu peguei um repetido que tenho. Fui procurar no meu escritório - só um aparte, acho que nunca tinha usado a frase no meu escritório, me senti muito adulto, não costumo me sentir adulto com frequência, fiquei um pouco emocionado. Ok, passou - então fui procurar nos livros estão empilhados por todos os cantos NO MEU ESCRITÓRIO, tem várias pilhas, tem a pilha dos que foram lidos, dos que não foram lidos, dos que serão lidos se eu ainda tiver vivo depois que terminar a pilha dos que não foram lidos, dos que eu pretendo ler de novo se os cientistas aumentarem a expectativa de vida e der tempo de eu ler todos os outros, etc. Então acabei achando, é um do Ray Romano um comediante que a gente gosta muito, uma edição de 2000, surrada com algumas manchas, mas praticamente inteiro, junto desse tinha um: Contos do Halloween, do Ray Bradbury, uma edição de 70, ainda mais acabada, mas linda, tanto que um dos motivos de eu comprar foi esse, tinha até uns furinhos, que dava um charme, mas agora piorou, como as covinhas de uma pessoa que engorda e envelhece e as bochechas caem e o que era o charme agora assusta. O que aconteceu foi que eu devo ter comprado o livro e ganhei a traça de brinde. Mas a traça não estava no livro do Bradbury, deve ter terminado de ler/comer, agora está em outro, tem muita coisa espalhada, ela - a traça - pode estar em qualquer uma das pilhas. Espero que esteja na pilha: livros que eu ganhei mas provavelmente eu nunca vá ler. Lá tem de autoajuda, empreendedorismo, coaches e religiosos com salmos para postar nas redes sociais. Porém se ele tava no do Ray Romano, achei uma edição do Luís Fernando Veríssimo, também comida, além do Ray Bradbury e outros Classico, acho que não vai nem chegar perto dessa pilha, ela parece ter um gosto mais apurado.
Abaixo uma entrevista com a traça dos livros, ou Lepisma saccharina, que ficou famosa por ter comido tantos livros que se tornou crítica literária.
Então você é a famosa traça que diz ter comido mais de dez mil livros.
— Sra. Lepisma saccharina.
— Ah, desculpa. Senhora Lepisma, verdade que a senhora comeu mais de dez mil livros?
— Parei de contar no dez mil, então foram mais.
— E foi assim que se tornou crítica?
— Depois do milésimo os livros já não eram apenas papel pra mim.
— Pode explicar melhor isso.
— Chega um momento que as palavras começam a ficar diferentes.
— Tipo quando você come?
— Não apenas como. Eu degusto, devoro, deleito-me e quando me vejo satisfeita deito-me na contracapa. Agora sou eu a capa, o conteúdo e o livro continua a existir de alguma forma, contudo.
O entrevistador fica em silêncio. Espantado com a resposta.
— Desculpa, tenho comido muitos livros de poesia.
— Sem problemas, acho que nunca alguém respondeu uma pergunta assim.
— Obrigado.
— Continuando.
— Claro, você ia perguntar alguma coisa.
— Como você come os livros, você não seria uma crítica gastronômica?
— Sabe que já pensei sobre isso, acho que sou um pouco dos dois. Afinal de contas eu como os livros e o gosto está muito atrelado ao conteúdo. Talvez antes tudo fosse apenas livro, papel, nada mais. Mas agora uma coisa está ligada à outra.
— Entendi, acha que ficou mais seletiva ou come de tudo?
— Não, muito mais, não consigo mais comer qualquer livro. Sei o que é bom e o que é ruim pela capa.
— Sério?
— Muito, dá pra saber o que vai fazer mal, o que é ultraprocessado, o que não vai cair bem.
— Pode citar exemplos?
— Autoajuda é o que mais me cai mal. É o fast food dos livros, livros tipo Cinquenta Tons de Cinza, essas coisas. Não como.
— E esses religiosos, Café com Deus Pai e outros. O que acha?
— Acho que se for pra ir pra religioso, vai logo na fonte, Bíblia, Alcorão, livro budista…
— Você acredita num ser superior, já que leu, ou melhor, comeu esses livros?
— Não, comi pra poder falar com conhecimento, sou mais A Origem das Espécies mesmo.
— Então não acredita em Deus?
— Não. Deus pra mim é Guttemberg.
— Certo, certo. Só para terminar, não sei se tem acompanhado mas o número de pessoas que leem livros físicos está diminuindo e aumentando o consumo dos livros digitais, acha que em algum momento os livros como conhecemos vão acabar?
— Olha, pelo que já li e comi, desde muito tempo falam que os livros vão acabar e até agora nada. As pessoas que optam por ler no livro digital não sabem o que estão perdendo, o cheiro do papel, o toque, a diagramação, aquela encadernação. Olha, aguei. Melhor encerrarmos por aqui porque me deu fome.
— Claro. Só antes, qual livro está degustando agora?
— Estou em um do Ray Bradbury, achei uma versão original de 1973, que vou devorar numa sentada.


Presentear é um ato que poucas pessoas sabem fazer.
Presentear é exatamente um ato de amor, reservar um tempo e pensar na pessoa, a importância que ela representa pra você, o carinho, amor, respeito, a atenção que ela merece para esse propósito. Enfim, seja amizade, amor, família tem que ter esse olhar, saber Presentear.
Sou muita sua fã, sou grata pois você ameniza minha síndrome de pânico. Consegui ir no seu show em Curitiba, amei, fiquei paralisada mas ver,ouvir e rir me fez sentir por 40 minutos uma mulher normal. Você não tem Ideia do bem que você faz aqui, YouTube, Instagram.
Quem sabe você lê esta, provável que não, mas vale a pena pensar. Obrigada Afonso Padilha.
“Deus pra mim é Guttemberg.“ excelente kkkkkkk