COMIDA DE MÃE
No dia seguinte ele ia se mudar. Então tinha que tirar as coisas do congelador para colocar para degelar. Entre coisas vencidas, batatas congeladas e outras coisas que ele não conseguia dizer o que eram, tinha um pote de sorvete com feijão, um clássico dos anos 90, tradição que ele fez questão de manter, pois toda vez que ele ia visitar a mãe, trazia feijão. Não que não soubesse cozinhar feijão, sabia e muito bem, era um adulto funcional, sabia, mas não igual ao dela, nada batia o feijão da mãe. Aquele foi o feijão da última vez que ela cozinhou. Abriu o pote e ficou olhando para o feijão. Aquela era a última “comida da mamãe”. Quantas vezes nesses últimos meses não tinha pensado em como seria bom poder voltar a comer a comida da mãe. Ela não era nenhuma masterchef, mas representava no básico, no simples. Então era pior: se ela fosse boa em pratos específicos, parmigiana, carbonara ou feijoada, seria fácil, era só não comer mais o chefe de carro. Mas não, o chefe de carro dela era o cotidiano, o arroz, o feijão, a carne moída, o frango frito, basicamente a base alimentar do brasileiro. Para fugir, só se se mudasse para o Japão ou China, só assim não compararia. E ali estava, o feijão da mãe; depois que comesse não teria mais. A não ser que mais alguém tivesse uma das marmitas que ela fazia e insistia para as visitas levar embora, “se ficar aqui vai pro lixo, eu só como comida fresca”. E iria mesmo, pois ela não sabia cozinhar pouco, tinha uma mania de cozinhar para pelo menos quatro pessoas. Resquício da casa com três filhos. Ela cozinhava muito bem para múltiplos de quatro. Se tentava cozinhar para seis pessoas usando uma medida e meia do que costumava usar para fazer para quatro, ficava ruim. Então começou a dobrar. São cinco pessoas, faço comida para oito, melhor sobrar do que faltar. Seis almoçando? Almoço para oito. Se tinha dez pessoas, fazia para doze. O máximo que fez foi a porção para vinte pessoas, nesse dia tinha 17 pessoas jantando. Então mesmo depois de eles terem saído de casa ela continuou cozinhando para quatro pessoas. Logo, sempre alguém levava uma marmita. Ele podia bater na casa das tias, amigas da mãe, e perguntar se ainda tinham alguma marmita que a mãe tinha dado. Não faria isso. Mas aquele feijão era o da mãe dele. O último. Depois que comesse seria a última vez que comeria a comida da mãe. Não podia descongelar e congelar de novo, azedava, pelo menos é o que a mãe falava. Então era aquela e pronto. Acabou pedindo para o vizinho guardar, buscaria assim que o congelador estivesse funcionando bem na casa nova.
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— Oi, dona Márcia.
— Oi, Felipe. Tudo bem?
— Bem, bem. Quer dizer, levando.
— É, difícil, meu filho. Difícil.
Silêncio.
— Dona Márcia, a senhora ia sempre lá na mãe, né?
— Vivíamos juntas.
— Ela também te dava marmita quando cozinhava.
— Sempre. Não conseguia cozinhar para pouca gente. Então ninguém que ia lá saía com as mãos abanando. Só pedia o pote de volta.
— A senhora sabe se tem alguma ainda aí?
— Oi?
— Marmita, alguma das marmitas que minha mãe deu pra senhora levar, um pote com qualquer comida dela. Pode ser qualquer comida.
Ela fica em silêncio.
— Posso dar uma olhada.
— Por favor. Márcia vai até o congelador.
Abre o congelador, fica olhando e tira um pote que sabe que era da mãe dele. Abre o pote e tem carne moída com batata.
— Tem essa carne moída…
— …com batatas?
Ela faz que sim. Ele sorri.
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Ela cozinhava para cinco pessoas.
Para ela, o marido e mais três filhos.
O mais novo foi fazer intercâmbio.
O mais velho se casou.
O do meio recebeu uma proposta de trabalho em BH.
O marido disse que agora que os filhos estavam criados eles finalmente poderiam fazer o que sempre quiseram, ele queria se separar.
E ela continuou cozinhando para cinco pessoas.
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Ela aprendeu a cozinhar quando casou.
Primeiro para os dois.
Logo veio o filho
Então aprendeu a cozinhar para três.
Quando já sabia todas as medidas para três
Descobriu que estava grávida de novo.
Quando o segundo filho começou a comer comida
Tinha aprendido a medida para quatro.
Pouco antes de o terceiro filho nascer
O marido morreu.
Não precisou aprender a cozinhar para cinco.
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Isso me fez lembrar de um episódio de The Big Bang Theory em que a mãe do Howard falece e deixa refeições prontas no congelador. Ele reúne os amigos para comer a última refeição feita por ela. Chorei demais nesse episódio... E ver isso acontecendo na vida real só prova que, às vezes, a vida imita a arte.
não tenho nada eloquente, só um sentimento representado por: é isso, Afonso 🫂🥲🤍