CONCHINHA MENOR
Todo dia casais novos se formam, pedidos de namoro são feitos, declarações amorosas são postadas publicamente nas redes sociais, mas todo dia também muitos casais se desfazem, e alguns são por motivos bem idiotas, pelo menos para quem está vendo de fora: “ele mastigava de um jeito que me irritava”, “ela fica muda durante o sexo”, “ele comia banana de garfo e faca”, “ela não desvirava chinelo do chão”, etc. Eu tenho vários textos aqui, que são só imaginando a cena de como deve ter se dado o término. Aliás, se você conhece alguém — ou até mesmo você já — que teve um término idiota, comenta.
O motivo de hoje foi: ela terminou com ele porque ele só queria ser a conchinha menor.
Ela sai da suíte do quarto, ele já está deitado do lado dele na cama, que é o direito, está virado para dentro da cama, ela desliga a luz na cabeceira, deita do lado esquerdo e vira para o lado de fora, recuando o corpo para dentro da cama, quase fazendo um moonwalk deitada para encaixar nele. Manobra o corpo para caber na vaga. Antes que ela termine a acompagem, ele se vira. Ela dá com a bunda na bunda dele. Ele coloca o braço para trás e puxa o corpo dela, para que ela vire e encaixe nele. Ela liga a luz e senta na cama.
— Não. Não. Hoje não.
— O quê?
— Hoje não vai ser assim.
— Meu Deus, o quê?
— Eu quero ser a conchinha menor.
— Mas você sabe que eu não gosto de ser a conchinha maior.
— Eu sei, mas eu não aguento mais ser a conchinha maior. Cansei. Não faz nem sentido, você tem um e oitenta e pouco, eu tenho um e sessenta e dois.
— E o que é que tem?
— Que é que tem é que fica parecendo que você está com uma mochila infantil.
— Mas encaixa tão bem.
— Sim, como um ogro tentando vestir um sapato de cristal.
— Para, é gostoso.
— É gostoso para você, para mim parece que eu estou dormindo abraçando um Fusca.
— Credo, amor.
— Credo nada. Eu não quero mais ser a conchinha menor. Homem é conchinha maior, mulher é conchinha menor.
— Eu achei que você era feminista.
— Não nisso. Nesse ponto, o feminismo perdeu a mão. Direitos iguais têm limite. Quando se trata de conchinha, eu sou conservadora.
— Eu te falei quando começamos a namorar que eu não gostava de ser a conchinha maior.
— Falou, mas eu achei que em algum momento ia mudar.
— Não, eu odeio. O cabelo fica na minha cara, me dá uma agonia, meu braço fica dormente, do nada tenho uma ereção nas suas coxas. Acho que não é legal.
— É legal, é claro que é legal. É o que eu quero.
— Amor.
— Amor nada. Ou, a partir de agora, a gente volta às raízes, ao tempo em que o homem era a conchinha maior, a proteção, ou está tudo acabado.
— Você não está falando sério, né?
— Seriíssimo.
Ela fala, deita e vira de costas para ele.
— E aí, qual vai ser?
— Tem como pelo menos você prender o cabelo?
— Não. Vou dormir com o cabelo solto. Se prendo, acordo com dor de cabeça amanhã.
Ela fala sem nem se virar para ele. Continua deitada de costas. Ele se aproxima. Encaixa. Ela apaga a luz.
— Boa noite.
Dois minutos depois, ele desfaz. Liga a luz.
— Não consigo. Desculpa. Eu não consigo.
— Então está tudo terminado.
Ela fala, levanta e vai pegando a roupa.
— Para com isso.
— Vou embora.
— Olha a hora que é. Não vai embora essa hora. Dorme aí.
Ela olha no relógio.
— Vou dormir.
Ele sorri. Ela volta para a cama.
— Mas amanhã eu vou embora.
Desliga a luz e deita.
— E não vou fazer conchinha.


Conchinha é bom durante uns vinte minutos — depois disso, eu quero é espaço para dormir e me virar na cama a noite toda, como a pessoa perturbada que sou!😂
Uma vez tive um namoro que durou uns 3 meses, porque toda vez que eu chegava do trabalho ele estava na portaria do prédio me esperando, para subir comigo. Imagina, você quer ir no banheiro, descansar, comer... e a pessoa sempre ao lado. Senti que tinha um stalker, não um namorado. Terminei.