DE OLINDA
Ela está sozinha em casa, agilizando as coisas para preparar o almoço. O celular toca, ela pensa que é o marido ou um dos filhos perguntando o que mais mesmo era pra trazer, o que seria deles sem ela. Mas não, é um número desconhecido, com o prefixo 81. Ela não tem ideia de onde é, mas atende.
— Alô.
— Alô, bom dia. Gostaria de falar com a Miriam?
— Quem está falando?
— É a Miriam?
— Se eu souber quem está falando, digo se é ou não.
— Aqui é a Cláudia, relações públicas dos Bonecos de Olinda, falando direto de Olinda.
— Bonecos de Olinda?
— Isso. É a Miriam?
— É sim. No que posso te ajudar, Cláudia?
— Estou ligando para pedir a sua liberação para fazer um boneco seu para esse Carnaval de Olinda. A senhora libera sua imagem?
— Sério que, em pleno 2026, estão aplicando trote? Não acredito nisso.
Ela desliga a ligação. Vai ao Google pesquisar de onde é o prefixo 81. Antes que consiga terminar a pesquisa, o celular volta a tocar.
— Alô.
— Oi, Miriam, por favor não desliga, não é trote.
— Não é não, imagina.
— Juro que não. Estou apenas fazendo meu trabalho. Fizemos a reunião e o seu nome foi escolhido para ser um dos bonecos deste ano. Tudo bem? Se sim, vou te mandar por e-mail um pedido de autorização para uso de imagem.
— Sabia, já querem meus dados. Não cansam de inventar golpes.
Desliga novamente. Volta para a pesquisa, que mostra que 81 é o prefixo de Recife, Pernambuco — Olinda, região metropolitana de Recife. O telefone volta a tocar.
— Miriam, última tentativa, só para ter certeza que não quer mesmo. Não é golpe, apenas te achamos interessante e queremos te representar.
— Olha, eu nunca fui para Olinda. Na verdade, o mais longe que eu fui foi num casamento de uma prima em São José do Rio Preto.
— Não tem problema. Não é sobre de onde você é, mas sim quem é e o que representa.
— Quem? E o que eu represento?
— Sim.
As duas ficam em silêncio.
— Quem eu sou e o que represento?
— Você é a Miriam, uma mulher brasileira que abriu mão de muita coisa — estudos, carreira — para se dedicar à família. Foi morar em Piracicaba e às vezes se pega pensando como estaria se não tivesse feito isso. E representa muitas donas de casa que abriram mão da sua vida por causa dos filhos e do casamento.
Silêncio.
— Miriam?
— Oi, desculpa, estou aqui. Só estava pensando… como tudo isso é verdade — e também de onde vocês sabem sobre isso.
— Então, a gente faz uma pesquisa bem aprofundada sobre quem será homenageado com um dos nossos bonecos. Eu sei que quem vê eles assim, pela TV — aquelas figuras grandes, com os brações balançando de lá pra cá — não leva a sério, mas cada boneco que está ali tem uma importância e uma representatividade. Você vai sair junto com o Wagner Moura e o Felca.
— Não é mesmo um trote?
— Não. Juro que não. É sério.
— Então tá bom, eu libero minha imagem.
— Muito obrigado, ficamos felizes que você tenha aceitado. Vou te chamar pelo Whats para afinar tudo e mostrar como você está ficando.
— Tá bom.
— Tchau.
— Tchau.
Desliga o telefone. Fica sentada. O pai chega com os filhos — tinham ido ao mercado.
— Ué, cadê o almoço?
— E, mãe, não fez?
— Tô com fome.
Ela nem presta atenção. Só consegue pensar: e se tivesse escolhido outro caminho. E também pensa: não vou falar nada, vou deixar eles verem que sou mais importante do que pensam.


Infelizmente, o trabalho não remunerado das donas de casa é visto como não produtivo. Apenas as mulheres com trabalho externo tem valor. E esse pensamento vem não apenas dos companheiros que não reconhecem a importância que suas parceiras têm na administração do lar, mas também da sociedade que vê o trabalho doméstico de forma depreciativa, como obrigação e não como função. Parabéns por trazer essa reflexão em seu texto, Afonso.
Belíssima reflexão !!!