DEUS NO COMANDO
Não é de hoje que venho reparando que cada vez menos carros têm adesivos do tipo: “Foi Deus que me deu”, “Jesus no comando”, “Eu estou dirigindo, mas Deus está me guiando” etc. Simplesmente estão sumindo.
E olha, eu ando muito de carro, não só em São Paulo, que é onde moro, mas no Brasil todo. Essa queda não se deu só nos grandes centros; em lugares menores também estão desaparecendo. Antes se via esse tipo de adesivo com muita frequência. Era sair na rua e dar de cara com um Fiat Uno com o adesivo “Presente de Deus”. Em Monza, Gol, Chevette… Deus era multimarcas.
Teve uma época em que esse tipo de adesivo caiu na graça, com o perdão do trocadilho. Mas esse tempo já foi. Hoje em dia tem que procurar muito para achar, e quase sempre está nos carros que já estavam aí anos atrás. Agora só se vê em carro velho. Eu mesmo nunca vi um carro desses novos. Deus só deve trabalhar com carros velhos e antigos. Pois não tem nesses carros bundudos, em SUV. Em carro elétrico, então, nem se fala. O que estão perdendo de tempo, pois seria um marketing mais atual. Algo como: “Deus é sustentável”, “Jesus quem carregou”, “Deus fez a luz, eu só carreguei”.
Mas não. Nada. Nenhum BYD com adesivo de Deus.
Acho que estamos assistindo à chegada do fim de uma era: a dos carros adesivados. Não acho que seja porque as pessoas estão deixando de ser cristãs. Pelo contrário, nunca se viu tanto falar de Deus. Com certeza, se Jesus voltasse hoje, seria um digital influencer.
Mas a perda de mercado se deve ao fato de que as pessoas não sinalizam mais a sua fé nas traseiras dos carros, mas sim nas redes sociais. Antes da popularização da internet, para a pessoa mostrar o quanto acreditava em Deus, precisava colar um adesivo no porta-malas do carro.
— As pessoas precisam saber que eu sou crente.
— Como assim?
— Tipo, eu vou sair na rua e elas precisam saber que eu acredito em Deus e que Ele está acima de tudo. Preciso que saibam.
— Quem?
— Todo mundo.
— Como?
— Já sei, vou colocar um adesivo no meu carro. Deus acima de tudo.
Agora, com as redes sociais, elas fazem isso nas postagens. Às vezes ainda usando o carro. Foto do carro novo no feed: “Deus, obrigado pelo presente”. Ou nos stories. Ou na descrição da bio: “Jesus no comando”. Jesus saiu de motorista para social media.
Outros pensamentos:
Será que a primeira pessoa que colocou no carro o adesivo “Foi Deus que me deu”, alguém chegou a acreditar?
— Foi Deus que te deu mesmo?
— Sim. Eu estava dormindo. Aí, na noite antes de pegar no sono, rezei um pouco e lembro de ter pensado: “Nossa, está chovendo muito. Deus podia me dar um carro para eu não precisar ir trabalhar na chuva”. Aí eu acordei e estava lá.
— Nossa, vou pedir um também.
— Tenta.
— Você chegou a escolher o carro?
— Não. Só falei um carro mesmo.
— Ah, então eu vou escolher, para não correr o risco de Ele me dar um desse aí.
Acho que, quando começaram a aparecer os primeiros carros, Deus deve ter perdido uns fiéis pela injustiça de uns ganharem carro e outros andarem a pé ou de transporte público.
— Calma aí. Deus deu um carro para o meu vizinho, que trata mal os filhos, trai a esposa, e eu, que faço tudo direitinho, estou andando de ônibus? Aí não compensa ser cristão.
Durante o período eleitoral, principalmente nas eleições municipais, prefeitos e vereadores oferecem gasolina em troca de colocar o adesivo do candidato no vidro traseiro do carro. Será que tem essa contrapartida quando é um adesivo religioso?
— Tá, mas se eu colocar o adesivo “Foi Deus que me deu”, eu ganho o quê?
— Como assim, ganha o quê?
— Ué, o vereador encheu meu tanque.
— Mas é Deus.
— Por isso mesmo. Eu espero mais que só um tanque.
— Ele não vai dar nada.
— Aí não compensa.
O sucesso dos adesivos era só dos cristãos. Não cheguei a ver um carro de alguém da macumba com um “Guiado pelos guias”, “Presente de Exu”. Ou até mesmo ateus: “Fui eu que me dei”.
Eu tirei a carteira de motorista faz 20 anos. Na época, um amigo financiou um Palio. Nisso, ia mais da metade do salário dele para pagar a parcela. Ele era um daqueles que não acreditam em seguro de carro. Mesmo se acreditasse, não conseguiria praticar a crença com o que sobrava do salário. Então, com o que sobrou, ele colou um adesivo: “Vigiado por Deus”. Em menos de um ano, o carro foi roubado. Ou Deus se distraiu, ou o ladrão era ateu.


Eu sempre leio na voz do Afonso, vai no automático
O melhor é o “NO DIA DO ARREBATAMENTO ESSE CARRO FICARÁ DESGOVERNADO”. O seguro cobre?