EDUCAR PESSOAS
Com essa onda da tal da machoesfera, que diga-se de passagem é um nome bem gay para um espaço só com homens que se dizem machões. É quase uma heterolândia, um espaço onde só pode homem mesmo, o lema é: a gente quer homem de verdade. Enfim, com esse boom no assunto sobre como um homem tem que ser criado para ser o provedor, é a peça mais importante de uma família e todo esse blá-blá-blá de quem tem a segurança de um posto de gasolina pegando fogo, lembrei de uma história de quando eu era criança. Minha mãe criou três filhos sozinha. Nos anos 90. Logo ouviu esse papo de família tradicional e importância da figura paterna algumas vezes. Muito antes de ser popular por redpill em rede social. Porém, ela nunca foi de levar desaforo para casa. Até porque já tinha três filhos para sustentar sozinha, não ia conseguir alimentar mais bocas.
Lembro que, quando eu estava na quinta série, coloquei minha mãe no centro de um desses momentos de preconceito com mãe solo. Durante a aula de geografia, o professor estava passando um texto no quadro. Um dos meus melhores amigos da sala, o Júlio César, pediu o meu livro de português para ele terminar um trabalho que era para a próxima aula. Só que o detalhe é que o Júlio não tinha o braço direito. Eu, no alto da minha inteligência, ao invés de levar o livro até o meu colega que não tinha o braço, joguei e falei: pensa rápido. Ele não conseguiu pegar com a mão esquerda — aparentemente ele era destro, porque ele ergueu o não braço direito dele. O livro passou reto e bateu nas costas do professor.
Ele parou de escrever na hora, já perguntando quem foi. Como todo mundo estava me olhando, ele não precisou perguntar uma segunda vez. Eu, obviamente, pedi desculpa, tentei explicar a situação, o que só piorou, porque eu estava jogando um livro de português na aula de geografia para um aluno sem braço. Obviamente não adiantou. Ele estava puto, falou um monte e finalizou dizendo que eu só ia poder entrar na aula dele com o meu pai. Pensei: pronto, vou reprovar por falta.
Então eu falei:
— Mas, professor, não tenho pai em casa. Ele foi embora, e minha mãe cria eu e meus irmãos sozinha.
Ele respondeu:
— Entendi por que você é desse jeito. Faltou um homem em casa para te educar.
Chegando em casa, contei para minha mãe a história. Lembro da minha mãe andando de um lado para o outro, tipo uma besta enjaulada. No outro dia, eu nem tinha aula com o professor, mas ela fez questão de ir no colégio. A gente ficou indo de sala em sala procurando ele. Quando encontramos, ela falou um monte para o professor. Ele tentou rebater, mas sem sucesso. Ela finalizou dizendo:
— Você acha que só ter um homem em casa serve de alguma coisa? Quantas pessoas não tiveram o pai presente e são pessoas horríveis? Saiba que eu crio meus filhos para serem homens bons — ou melhor, pessoas boas —, para homens, para mulheres e para todo mundo. Faço melhor do que qualquer homem faria. A educação não é uma questão de ser homem ou mulher. Você acha que faltou homem na minha casa, e eu acho que na sua faltou uma mulher para te ensinar a não falar essas besteiras.
Lembro de pensar: essa é a minha mãe, porra. Minha mãe tinha 1,50, mas naquele dia pareceu ter uns 2 metros. O professor pediu desculpas pelo modo como falou. Ela foi embora, pois tinha que voltar para o trabalho, e eu fiquei para assistir às aulas.
Depois da aula, fui para casa e esperei ansioso ela chegar para a gente comemorar, pois mostramos para o professor como funciona lá em casa. Que meu pai ter ido embora não atrapalhou em nada. Que criação não é uma questão de gênero, mas sim de humanidade.
Minha mãe chegou do trabalho. Eu fui receber ela com um sorriso. Ela me deu uma surra para eu aprender a parar de jogar as coisas na sala de aula e, principalmente, aprender a respeitar os professores. Realmente, ela sabia como educar uma pessoa.


impressionante como eu leio ouvindo a voz dele KKKKKKKK
Espero que eu consiga transferir todos esses ensinamentos e educação ao meu filho como sua mãe fez contigo! Maravilhosa!