O SONHO
Ele estava sentado naquela parte em que a bunda fica na areia macia e os pés onde a água chega. Sozinho. Olhando para o mar. A praia estava estranhamente vazia, como se tivesse sido fechada só para ele. De repente ouviu um assovio. Olhou para os lados, nada, não viu ninguem. Mais um assovio. Então olhou para trás. Era uma mulher. Ela assoviou de novo e balançou o braço, acenando para ele, chamando. Ele tentou identificar quem era, mas não conseguia ver direito porque o sol estava atrás dela. Não sabia exatamente se estava nascendo ou se pondo. Então foi na direção dela.
Antes da metade do caminho percebeu quem era. Sentiu as pernas fraquejando. Não podia ser. Ela tinha morrido. Dali a um mês completaria um ano. Foi chegando perto. Era ela mesmo. Sua mãe. Não careca como tinha partido, mas de cabelos curtinhos, como costumava usar, só que bem branquinhos.
Enquanto ele se aproxima, ela abre os braços.
— Que demora.
— Mãe?
— Faz tanto tempo que está na dúvida? Meus cabelos mudaram, mas eu continuo a mesma.
— Mãe!
Ele corre para os braços dela. Abraça apertado. Ele, que não era de abraçar. Na verdade, puxou isso dela. Já que nem ele nem ela eram. Mas, naquele momento, deixaram de lado velhos hábitos.
— Mãe, não acredito. Mãe. Não acredito. Mas você… você…
— Morri?
Ela falou o que ele não conseguia falar, com medo de que, se falasse, ela morresse de novo.
— Sim, eu morri mesmo.
— Mas… mas…
— Isso é um sonho. É só prestar atenção. Você está na praia do nada, sendo que não gosta de praia, não tem ninguém em volta e a gente está se abraçando.
Ele ri entre lágrimas. Ela continuava engraçada. Então, do nada, ela dá um tapa no braço dele.
— Ai! Que isso?
— Tem quase um ano que estou esperando para entrar num sonho seu.
— Eu sou ruim de sonho.
— Ruim? Está sendo gentil. Você só sonha preto, não tem nada. Parecia que tinha acabado a luz no seu sonho. E olha que eu vinha sempre. Uma vez até tive uma oportunidade, mas era um sonho que estava indo para um caminho que achei melhor nem entrar.
Ele fica sem graça.
— Depois disso, não sonhou mais. Se eu soubesse, tinha enxotado aquela piriguete.
— Eu tenho dificuldade de sonhar.
— Você é um imprestável quando se trata de sonho. Desse jeito nunca vai ganhar no bicho.
Enquanto ela fala, ele só a admira, sorrindo, com os olhos cheios de lágrimas.
— Eu estava… estou… com tanta saudade.
— Eu também, meu filho.
Se abraçam mais uma vez.
— Eu sei que é só um sonho, que minha cabeça está criando isso enquanto eu durmo, porque essa semana pensei muito em você, mas é tão bom poder te ver de novo. Nem que seja assim.
Ela dá outro tapa nele. No mesmo lugar. Dessa vez mais ardido.
— O que foi dessa vez?
— Não sou uma coisa da sua cabeça coisa nenhuma. Eu sou eu. Para de ser besta.
— Como não? Se isso é um sonho, um sonho nada mais é do que uma manifestação do nosso subconsciente baseada nas nossas memórias…
Outro tapa.
— Para, mãe.
Ele se emociona ao falar essa frase.
— Não é nada de manifestação de coisa nenhuma. Você está no seu sonho e eu vim aqui te visitar. Mas, como você não sonhava, eu não conseguia falar contigo.
— Então você é você mesma?
— Com todas as minhas qualidades.
— E defeitos.
Ele puxa o braço antes que ela bata.
— Que seja. O importante é te ver. Gostei do cabelinho.
— Cresceu bem e branco, você viu.
— Deu um ar angelical.
— É uma bênção não ter que pintar mais.
Ele olha para ela. Feliz por ela estar bem.
De repente, um som alto toca em toda a praia. Um alarme.
— Ih, melhor você acordar.
— Mas, mãe, eu quero ficar mais um pouco.
O alarme soa mais alto.
— Não. Acorda. Você tem que trabalhar.
— Mãe…
— Que mané mãe.
O alarme toca uma terceira vez.
Enquanto ela dá tchau, tudo fica escuro. Ele abre os olhos. Está deitado na cama com o alarme gritando. Estica o braço, aperta o botão soneca do alarme. Tenta voltar para o sonho, mas é inútil. Sabe disso. Ainda de olhos fechados, uma lágrima escorre pelo rosto. Mesmo que tivesse sido apenas um sonho, estava feliz por tê-la visto. Vira para o lado esquerdo. Sente uma dor no braço. Abre os olhos e vê que o braço está vermelho. Começa a rir sozinho.


Olha, faz rir mas sabe fazer chorar tb
Afonso, eu queria tanto te dar um abraço!
Perdi meu pai há 4 anos e é tão raro sonhar com ele. Das vezes que sonhei, quase nunca foram sonhos bons.
Eu sinto tanta falta dele, Afonso. Tanta!
Que a gente possa sonhar sonhos lindos com os amores da nossa vida que partiram.
Receba meu abraço.
E, pra não perder o costume, não canso de dizer que eu adoro te ler.
Com carinho,
Érica Ferro