OUTRO CPF
Todo mundo, em algum momento da vida, já passou ou vai passar por aquela situação constrangedora de ser abordado por alguém que parece saber muito bem quem é você, mas você não tem ideia de quem é a pessoa. Mas fica com medo de admitir que não faz ideia de quem ela é por receio de magoar os sentimentos dessa pessoa que você não lembra.
Semana passada eu postei no Instagram um vídeo de um stand-up comedy meu de 2012. Na época eu tinha 23 anos, ou seja, muito cabelo, pouca ruga, 25 kg e quase 15 anos a menos. Realmente eu mudei, mas, tirando a barba, que cresceu, e o cabelo, que cresceu, caiu, fiz o transplante e agora está crescendo de novo, nunca fiz nenhum procedimento estético. Não tenho nada contra quem faz, só contra quem faz preenchimento labial exagerado, que fica parecendo duas linguiças, ou quem coloca lente no dente com um tom de branco que dói os olhos quando a pessoa sorri. Fica parecendo um pato com dentadura. Mas, tirando isso, nada contra, só não é para mim. Não que eu não precise, está na cara que preciso. Na cara e no corpo. Consigo apontar vários defeitos em mim. Aliás, sempre tive mais facilidade para apontar os defeitos do que as qualidades em mim mesmo nas entrevistas de emprego. Era sempre aquela cena:
— Fale-me um defeito e uma qualidade.
— Defeito? Tímido, problema de autoestima, inseguro, medroso…
— Certo, certo. E uma qualidade?
— Qualidade. Uma qualidade. Quer uma qualidade, certo?
— Sim.
— Qualidade é difícil. Dá um exemplo aí do que é uma qualidade numa pessoa.
Talvez por isso eu nunca fosse contratado.
Mas, apesar de precisar, para mim hoje é não. Há algumas semanas também, coincidentemente, as pessoas começaram a postar nas redes sociais uma foto ou vídeo delas antes e depois com a legenda: “Outro CPF”. A ideia é que a pessoa mudou tanto que precisaria de outros documentos, nasceu de novo. No vídeo em questão tem mais de 2 mil comentários. Muitos deles dizem que eu precisava de outro CPF. Não sei se é para tanto. Além de que lutei muito para manter esse limpo para me desfazer dele agora.
Volta e meia acontece comigo a situação de encontrar uma pessoa que parece me conhecer e eu não conhecer ela. Sempre saio desses encontros falando que, da próxima vez, vou dizer logo de cara que não sei quem é. Semana passada eu encontrei esse homem que veio com uma intimidade de quem me conhecia muito bem, muito carinhoso. Só faltou falar: “Eu te peguei no colo”. E eu com aquela vergonha de quem não tem ideia de quem está falando, mas com vergonha de admitir, porque ele parecia ser muito próximo de mim. Então me vi naquela situação em que você pode abrir o jogo e falar: “Olha, desculpa, mas eu não lembro de você”, ou continuar murmurando coisas genéricas até a pessoa ir embora. Fui na segunda opção, mas falhei na missão, porque chegou um momento em que ele falou:
— Você não lembra de mim, né?
Eu pensei em fingir um desmaio, mas, antes que eu falasse qualquer coisa, ele disse:
— Tudo bem, eu tinha 170 kg e era careca.
E continuou falando, mas eu não estava mais prestando atenção, porque nesse momento eu fiquei puto com ele por, em algum momento, achar que eu ia lembrar. Ele mesmo deve ter levado pelo menos um ano para se acostumar. Olhava no espelho e tomava um susto, pensando: “Invadiram minha casa! Ah, não. Sou eu”.
Devia ser proibido você colocar a pessoa numa situação dessas. Principalmente se você mudou tanto a ponto de poder participar de uma brincadeira que diz que virou outra pessoa. Se teve tantas mudanças que seu cachorro avançou em você até perceber quem era, não pode fazer isso. Ainda mais em tempos em que está mais fácil mudar devido ao acesso a intervenções estéticas e canetas emagrecedoras.
Tinha que ser regra: se mexeu em mais de três coisas no rosto, não tem que esperar que pessoas que não te veem há muito tempo se lembrem de você. Então, quando encontra alguém que não vê desde que fez as intervenções, não tem que esperar que ela faça associações com as partes que sobraram do que você era. Já fala de cara:
— Oi, eu sou fulano. Nem se você quisesse ia se lembrar de mim. Eu mesmo ainda estou me acostumando.
Ela está em pé. Atrás dela, uma fila. Ela é a primeira da fila.
— Próximo.
— Pois não, no que posso te ajudar?
— Vim tirar outro CPF.
— Segunda via?
— Não, outro mesmo.
— Outro se chama segunda via, moça.
— Mas eu não vim tirar segunda via. É outro CPF mesmo.
— Como assim?
— É que eu mudei tanto que não faz mais sentido eu ter esse CPF.
— Desculpa, ainda não entendi.
— Eu era uma pessoa, agora sou outra, completamente diferente. Aí quero outro CPF.
— Mas não funciona assim.
— Não dá para eu continuar com o mesmo CPF depois de tanto investimento. Olha isso.
Ela tira umas fotos de uma pasta.
— Olha. Quinze anos atrás, dez anos atrás, oito…
— Realmente mudou muito.
— Muito?
Ela se afasta do guichê. Dá uma volta.
— Praticamente tudo.
— Pois é, mas ainda assim não dá.
— O que não dá é eu ter que usar o mesmo CPF depois de tanto investimento.
— Desculpa, mas eu não posso ajudar.
Silêncio.
— Posso pelo menos tirar outra foto para o RG e a carteira de motorista?
— Não precisa mais. O sistema atualiza sozinho com a que tem.
— Mas eu não sou mais aquela pessoa. Vocês deviam incentivar mais as mudanças das pessoas.
— Sinto muito. O próximo, por gentileza.
Ela sai brava. Um homem se aproxima do guichê.
— No que posso ajudá-lo?
— Eu tenho transtorno de múltiplas personalidades. Queria tirar um RG para cada uma
.


Suas qualidades extrapolam qualquer defeito que tens.
Vai, Afonso, junta tudo e faz um livro, essas crônicas estão de excelente nível.
Abraços!!
O texto e imagem me fazem pensar se esses procedimentos estéticos que praticamente te transformam em outra pessoa, não são uma forma de apagamento de si mesmo. Na minha cabeça, tudo que nossa aparência é tem um porque de ser assim, e é funcional como é. As vezes você quer melhorar algo e acaba zuando o que tava perfeitamente funcionando hahaha não julgo quem opta por esse caminho do padrão estético aceitável socialmente, e realmente existem coisas que afetam a autoestima de uma pessoa, como por exemplo e bem citado no texto a calvície, só não entendo porque mexer no que não tá fazendo mal a ninguém só pra ficar igual a todo mundo.